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Eleições EUA: Democratas conquistam maioria na Câmara e deixam Donald Trump na berlinda

O resultado das eleições legislativas desta terça (6) pode ser reivindicado como vitória por democratas e republicanos. Nas eleições legislativas de meio mandato presidencial, os democratas retomaram o controle da Câmara ao conquistarem novos 26 assentos – mais do que os 23 necessários para comandar a Casa.

Ficaram, porém, longe da onda azul que esperavam.

O revés republicano era esperado, pois, nas chamadas “midterms”, o partido da situação costuma perder a maioria de uma das Casas. Ainda assim, com a confirmação da vitória, os democratas terão o poder de complicar a vida do presidente Donald Trump.

Poderão pedir acesso a documentos fiscais e financeiros, para verificar se houve, por exemplo, registro de pagamentos feitos por governos estrangeiros a negócios em que o republicano tem participação –o que é vedado por lei.

Supervisionar as ações do presidente é um dos deveres constitucionais do Congresso, mas, nos dois primeiros anos da atual gestão, essa premissa não foi levada a sério, diz Richard Arenberg, professor de ciências políticas da Universidade Brown.

“Agora haverá muitas questões para as quais os democratas vão olhar”, diz.

Os congressistas terão possibilidade de convocar pessoas para depor e iniciar um procedimento de impeachment. Considerando o aumento do poder democrata, o partido pode se dizer vitorioso.

Os republicanos, porém, saíram-se bem. Trump, que construiu um discurso de que as midterms seriam um referendo sobre sua presidência (elas sempre servem de termômetro para o presidente de turno) , qualificou o resultado como “tremendo sucesso”.

Seu partido ampliou a maioria no Senado –deve terminar as eleições com três ou quatro assentos adicionais.

Para Stella Rouse, diretora do centro para política americana e cidadania da Universidade de Maryland, isso faz com o que o Partido Republicano largue com vantagem para as eleições presidenciais de 2020.

“Os republicanos começam de uma posição mais forte, porque os democratas nem têm candidatos. Há nomes que são citados, mas nenhum confirmado.”

Naturalmente, o candidato republicano está dado –é Trump, salvo em caso de impeachment ou de uma contestação fratricida dentro do próprio partido.

Do lado democrata, entre os que aparecem na mídia estão o da senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, do senador Bernie Sanders, de Vermont, e até o de Beto O’Rourke, sensação democrata que foi derrotada no Texas pelo republicano Ted Cruz na disputa pelo Senado.

“Mesmo Trump sendo impopular na mídia, ele está no poder, e o partido no poder sempre tem vantagem. Os democratas ainda terão trabalho.”

Arenberg, por sua vez, diz não acreditar que Trump deva se fortalecer nos próximos anos, já que expandir a sua base de eleitores, especialmente entre jovens, negros e mulheres, será difíci”.

A vitória na Câmara, por mais força que dê ao partido do ex-presidente Barack Obama, também deixa os democratas mais expostos. O presidente deve passar os próximos dois anos amplificando os já comuns ataques aos oponentes.
Na retórica de Trump, o partido adversário facilita a entrada de imigrantes ilegais nos EUA, é responsável pela situação fiscal preocupante e fechou acordos comerciais “ruins que prejudicaram o país no passado”.

“Se o presidente quiser se reeleger, ele tem até novembro de 2020 para bater nos democratas. Vai culpar os democratas por tudo que acontecer no país e por não conseguir aprovar alguma lei”, afirma David Birdsell, reitor da Marxe School of Public and International Affairs do Baruch College.

Birdsell lembra que o presidente já enfrentava dificuldade de aprovar algumas medidas mesmo tempo maioria republicana nas duas Casas –foi assim com uma proposta em fevereiro que endurecia o arcabouço de imigração e que foi vetada por 14 senadores do partido.

Mesmo sob ataques e com a maioria na Câmara, os democratas terão que se movimentar com cautela nos dois anos que faltam até 2020.

O objetivo é não provocar reações inflamadas da base conservadora de Trump e não afugentar eventuais republicanos moderados que possam estar desiludidos com os rumos do partido.

“Eles têm o poder de iniciar processos de impeachment, mas pode não ser inteligente usar todo esse poder, porque o próprio presidente ainda tem muito poder”, diz Stella Rouse, da Universidade de Maryland. “Politicamente, há muita divisão no país a respeito de Trump dever sofrer um impeachment ou não.”

O partido também pode enfraquecer caso não trabalhe com a Casa Branca, o que renderia a pecha de agir com o único propósito de obstruir a agenda do republicano, avalia Arenberg.

Caso a investigação do procurador especial Robert Mueller sobre a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016 produza alguma prova que corrobore a tese de que o presidente violou a Constituição, o terreno ficaria menos movediço, ressalta.

Enquanto isso, a retórica de ódio e de confrontação deve continuar aprofundando as divisões no país, avalia Ruth Mandel, diretora do instituto Eagleton da Universidade Rutgers.

“Vai ser exaustivo para as pessoas. Tem muito conflito, divisão. Não acho que a eleição vá mudar as coisas de forma significativa, as pessoas estão cansadas de conflito e negatividade, mas não veem uma maneira de se livrar disso”, diz.

“Há líderes que não têm interesse em entender as diferenças, divisões geográficas, identidades. Não é um bom momento, e não se trata dessas eleições, trata-se de algo maior que isso.”

Durante coletiva realizada nesta quarta (7), o presidente afirmou que espera trabalhar junto com o partido da oposição em questões como saúde, meio ambiente e infraestrutura e teceu elogios à líder democrata, Nancy Pelosi, cotada para ser a nova presidente da Câmara.

“Ela trabalha muito duro”, afirmou o republicano. “Reconheço o que ela fez e alcançou.”
Em seu discurso, porém, Trump também ameaçou retaliar os adversários caso decidam aprofundar ou iniciar investigações contra ele.

Ele chamou de “gesto de guerra” uma eventual iniciativa democrata de fazê-lo se explicar por ações passadas.

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