Três vereadores do município de Dias D’Ávila, na região metropolitana de Salvador, prestaram queixa na 25ª Delegacia Territorial contra o também vereador José Morais de Almeida Júnior (PDT), conhecido como Júnior do Requeijão. Milton Barbosa da Silva (PSDB), Renato Henrique de Souza (PT) e Raimundo Santana (PRB) registraram o caso na delegacia após receberem um áudio atribuído a Junior do Requeijão, em que é relatado um esquema de “mensalinho” na Câmara de Vereadores da cidade.
O G1 tentou contato com Júnior do Requeijão, mas as ligações caíram na caixa postal.
Sem dar detalhes sobre o caso, a Polícia Civil confirmou que apura denúncia de calúnia contra o vereador Junior do Requeijão e que os envolvidos estão sendo ouvidos.
O G1 teve acesso aos dois áudios atribuídos a Júnior do Requeijão, relatados pelos vereadores à polícia. No primeiro, é citado um pagamento feito aos vereadores e assessores pela “Soten”, o que seria, segundo ele, um “mensalinho”. O G1 procurou informações sobre a Soten, mas não encontrou dados.
“Gente, boa noite. Segunda-feira mesmo, depois da sessão, teve o pagamento da ‘Soten’. Tudo na mão. Falei até com Milton. Tem vereador que recebe pela mão, assessores, etc. Tem muitos que recebem mão no saco. Vereadores, todos recebem mão no saco. Todos são tabelados. Existe um mensalinho ali”, diz o primeiro áudio atribuído a Júnior do Requeijão.
No segundo áudio, que também teria sido enviado por Júnior do Requeijão, trata-se de uma conversa com um homem chamado Adélio, em que se reafirma o que foi dito na primeira mensagem de voz.
“Boa tarde, sr. Adélio. O senhor resolveu pegar no meu pé, mas é bom. Sou homem público, o senhor deve cobrar sempre. Com respeito. Tenho o respeito como prioridade da minha vida. Respeitar pessoas como o senhor, que está equivocado, mas não vou desrespeitá-lo. Esse áudio passei para uma pessoa, que passou para o senhor. Procure saber quem recebia e quem não recebia e o senhor vai ver se eu estou falando a verdade ou não. Veja a data disso, veja como foi. A pessoa que lhe passou deve saber. O senhor não, o senhor está sendo só usado. Mas a pessoa que lhe passou deve ser um tremendo mau caráter. O áudio é meu e é legítimo. Comigo você não me encontra com as calças na mão, pode me encontrar cagado com as calças na mão não”, diz segunda mensagem de voz.
Raimundo Santana foi um dos vereadores que registraram queixa na delegacia contra Júnior do Requeijão. Ao G1, ele disse que ouviu o primeiro áudio há dois meses, mas achou que fosse brincadeira. Após ter conhecimento da segunda mensagem de voz, que teria sido gravada mais recentemente, decidiu, então, registrar o caso na delegacia.
“Recebi essa denúncia por meio das redes sociais. Registrei o B.O. na delegacia e expliquei para o delegado que recebi o áudio do vereador Júnior do Requeijão falando desse problema. Que os vereadores estariam envolvidos, funcionários da câmara também, no mensalinho, que recebiam propina em troca de favores. Ouvi pela primeira vez o áudio há dois meses. Achei que era brincadeira. Quando foi há duas semanas, ele gravou outro áudio, dizendo que era verdade. Eu, junto com o vereador Renato Henrique e o vereador Milton do Fórum fomos na delegacia, registramos o boletim de ocorrência e pedimos que o vereador Júnior do Requeijão se explique diante da Justiça”.
Raimundo Santana afirma que não tem conhecimento sobre esse suposto esquema de “mensalinho” na Câmara de Vereadores de Dias D’Ávila.
“Ele formalizou uma denúncia grave e não apresentou provas. Terá que provar que isso realmente está ocorrendo. Se está ocorrendo, nós não temos conhecimento. Por isso tomamos essa atitude. Não vamos aceitar que nosso nome esteja envolvido em corrupção. Estou no terceiro mandato, nunca me envolvi nesse tipo de problema. Agora surge o vereador Júnior do Requeijão com essa denúncia. Ele vai ter que se explicar, esclarecer qual é o objetivo dele, se tem problema político ou pessoal com alguém da Câmara”, afirma.
O vereador afirma que não conhece a “Soten”, citada no áudio. Raimundo Santana conta que, na próxima quarta-feira (17), vai solicitar ao presidente da Câmara uma ação para que Júnior do Requeijão esclareça o caso. Ele diz também que enviou o processo ao Ministério Público.
“O vereador Júnior do Requeijão atingiu um poder, expôs pais de família. Não só os vereadores, como funcionários da câmara. Nem conheço essa empresa Soten. Estamos reunidos para investigar que empresa é essa, se ela existe. Até agora, não temos conhecimento de ação dela no município”.
Os vereadores Renato Henrique e Milton Barbosa também garantem que não participam de qualquer esquema na Câmara de Vereadores.
“Na verdade, só soube disso quando esse vereador colocou esse áudio, que se espalhou por toda a cidade. Chegou até a gente. Ele disse que a empresa pagava todos os vereadores. Eu sempre tive minha vida íntegra. Entramos com uma denúncia na delegacia para que se investigue. Como ele falou que tem um esquema de mensalinho, que ele diga quem está envolvido e, se tiver realmente alguém, que pague perante a Justiça”, disse Renato Henrique.
“Estou no meu primeiro mandato. Imagine. Teve isso, ele não se pronunciou, agora a gente tem que cobrar. É uma denúncia muito grave. Temos que pregar a moralidade, principalmente em uma situação como essa”, afirma Barbosa.
Renato Henrique conta que pesquisou, mas que não achou nada sobre a “Soten”, suposta empresa citada no áudio.
“Acho que ele confundiu o nome da empresa. Ontem [15], no Diário Oficial, vi uma empresa com nome parecido. Mas acho que ele confundiu o nome da empresa. Só ele para explicar. Procurei essa empresa Soten, mas não achei nada”.
“Acho isso um absurdo. Sempre tive minha vida íntegra, aí chega um vereador e diz que toda a Câmara recebe mensalinho. Se tiver, ele tem que dizer quem é e provar”, continua o vereador.
Segundo Milton Barbosa, na primeira sessão após a divulgação dos áudios, se esperava que Júnior do Requeijão falasse sobre o caso, mas o vereador não compareceu.
“O vereador Renato Henrique e o vereador Raimundo aguardaram que ele se pronunciasse. Mas, na sessão seguinte à divulgação do áudio, ele não compareceu. Fomos na delegacia e registramos um boletim de ocorrência por calúnia. É uma denúncia grave. A gente esperou, ele não se pronunciou. Ele ainda diz que é ele mesmo fazendo a denúncia. Colocou todo mundo em suspeita”, relata Barbosa.
“Não sei o que ele quis dizer. A prefeitura tem maioria na Câmara. Não tem sentido uma empresa pagar para aprovar nada”, conclui Barbosa. (G1/BA)


