Você pode até não perceber ou lembrar, mas provavelmente alguma música do forró das antigas, também chamado de forró eletrônico, faz parte da sua vida. Quem nasceu em algum dos nove estados do Nordeste tem contato “obrigatório” com essas canções, que extrapolam o período das festas juninas e são ouvidas, cantadas e dançadas o ano inteiro.
No entanto, a região ficou pequena para abrigar todo o sucesso de bandas como Calcinha Preta, Limão com Mel, Magníficos e Mastruz com Leite, que têm seus refrões e suas melodias marcantes conhecidos no Brasil inteiro.
Mas o que leva uma música a ser enquadrada nessa categoria de forró das antigas? Segundo especialistas ouvidos pelo g1, a primeira característica se refere a uma mudança estética em relação ao forró tradicional, representado, principalmente, por Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião, e por Dominguinhos.
“As bandas trouxeram uma mudança estética no forró, com as guitarras, as baterias, acrescentando outra sonoridade ao forró tradicional, que é feito a partir do triângulo, da zabumba e do pandeiro, no máximo ali com um violão ou uma viola. As bandas de forró eletrônico têm um instrumental muito maior, que valorizam demais os naipes de guitarra e de bateria”, explicou o antropólogo Hugo Menezes.
Outro aspecto que caracteriza o forró das antigas é o repertório dividido em dois grandes grupos temáticos. “As músicas do forró eletrônico têm um repertório composto por músicas que falam de amor e de desilusão e que têm uma ingenuidade romântica. A outra dimensão é a vaquejada e outras experiências do repertório nordestino”, afirma Menezes, que é professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Ao surgir na década de 1990, o forró eletrônico chegou a ser chamado de “forró de plástico”, uma expressão pejorativa que era utilizada para fazer uma oposição àquilo que era tido como clássico e tradicional, que era o forró de Gonzagão.
“Há dois erros, dois equívocos conceituais. Um deles é achar que a mudança estética é, por si, uma ameaça de morte de uma expressão tradicional. A mudança estética é meramente um resultado de um processo mesmo de mudanças que o mundo passa, que as sociedades passam, que a gente passa. E o segundo ponto é achar que o forró é algo intocável, imexível, imutável, achar que é puro”, afirmou Hugo Menezes.
Apesar das diferenças entre o forró das antigas e o forró de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, há várias semelhanças entre esses dois ritmos ou estilos de um mesmo gênero musical, que é marcado por uma expressiva e notável diversidade.
“No repertório gonzaguiano, tem muito sobre amor e vaquejada. As coisas também se comunicam, porque a gente fica sempre pensando que eles são oposição, mas eles também se encontram em alguma medida. Há uma diferença sonora, evidente, mas também existem aproximações temáticas das músicas, que devem ser valorizadas enquanto expressões do mesmo gênero, que é o forró. O compasso é similar, as temáticas são similares, entretanto é acrescido a esse forró das antigas um conjunto de instrumentos que fazem com que o som fique diferente”, contou Menezes.
Com relação às letras, a principal compositora dos sucessos do forró das antigas foi a cantora cearense Rita de Cássia, que morreu em janeiro de 2023, aos 54 anos. Da mente criativa dela, saíram clássicos como “Meu vaqueiro, meu peão”, música lançada em 1993 e considerada o marco inicial do chamado forró eletrônico.
“Rita de Cássia tem mais de 500 músicas, grande parte delas gravadas por bandas como Mastruz com Leite e Cavalo de Pau. Essa compositora tem uma forma de narrar o Sertão muito poética, muito cândida, muito romântica, pois canta a paisagem do Nordeste, ela canta os amores impossíveis”, pontuou o especialista.
Outro destaque feminino é Eliane, conhecida como a “rainha do forró”. A cantora cearense, de 57 anos, se firmou como uma das principais vozes do forró das antigas, um protagonismo que chama atenção por ser a exceção em um cenário musical que era predominantemente dominado por bandas. Entre os sucessos da carreira dela, estão “Quem é ele”, “Meu nêgo” e “Amor ou paixão” — esta última canção foi regravada por Elba Ramalho, em uma versão lançada na sexta-feira (20), para o São João de 2025.
Muitos forrós das antigas têm uma característica em comum — são versões de músicas estrangeiras de outros estilos como rock e pop, como os exemplos listados a seguir:

